quinta-feira, dezembro 22, 2005

Portugal: o filho esbanjador e mimado da UE (1)

1) Bom. Fora da típica aura de "coitadinhos" e de mediocridade do espírito português, há coisas que devem ser ditas como são. Ontem, dia 21 de Dezembro de 2005, foram finalmente anunciados os resultados do acordo plurianual para o orçamento da União Europeia entre 2007 e 2013, acordo do qual Portugal sai inegavelmente beneficiado. Durante sete anos, mais de seis mil euros por minuto entrarão nos cofres do Estado com destino à sua aplicação pública - perfazendo um total de 22.500 milhões de euros, cerca de 4 milhões a mais do que a mais optimista das expectativas.

2) Desses, 16.420 milhões serão aplicados no "desenvolvimento estrutural" regional e social, sobrando ainda alguns para a coesão (2422 milhões), desenvolvimento rural (3170 milhões) e pescas (220 milhões). Restará, ainda, para além dos apoios directos aos agricultores, uma pequena parcela "ainda não quantificada" segundo o Público para investir em política interna, cultura, ambiente e investigação cientifica.

3) Mais do que excelente, este orçamento permite que Portugal não se afunde totalmente, pelo menos, por mais 7 anos, cortesia das negociações diplomáticas do MNE e da presidencia europeia de Durão Barroso. Contudo, na verdade, é um bonus que Portugal não merecia.

4) Portugal é o filho esbanjador e mimado de uma Europa mergulhada em crise. Digo-o porque já em tempos beneficiou de uma boa dose de apoios comunitários que seriam mais que suficientes para uma contribuição positiva do país na UE, fazendo uso do investimento previo para melhorar as condições do país e aproveitar as economias emergentes dos novos membros para expandir o mercado - esses sim, com obvias necessidades de apoios estruturais.

5) Contudo, tudo o que Portugal conseguiu fazer foi concretizar projectos megalómanos baseados no argumento de "aproveitar os fundos já que cá estão" - sem saber o que fazer ao dinheiro, enumere-se o trabalho péssimo nos Pólis (e o da caparica?), a expo, os estadios do euro, enfim. Tudo, claro, com uma elevadissima concentraçao no litoral do país, acentuando a clivagem com o interior, a par de um crescimento do defice, diminuição do PIB, desrespeito sucessivo do pacto de estabilidade e uma contraproducente e cada vez mais pesada despesa pública.

6) Apesar de ser leigo em termos de assuntos de economia comunitaria, nao posso deixar de encarar com surpresa este investimento no nosso país numa época de crise, face ao quadro acima traçado e à entrada de novos paises membros, acrescentando a isto os falhanços relativamente à constituição europeia. E em vez de um castigo - merecido - Portugal sai beneficiado.

2 Comments:

Blogger Liliana Valente said...

Tens razão na tua análise, realmente Portugal é "o filho mimado de uma UE em crise".Em tempos fomos apelidados "os melhores alunos da UE" com tudo o que isso implica. O que é bom e o que há de mau. Fomos tão bons alunos que deixámos de ter autonomia para pensar pela própria cabeça e desbaratámos com o dinheiro em elefantes brancos.

Comentario estupido: Será que o nosso poder de corrupção já chegou á UE? Mas se o que recebemos é dinheiro o que damos nós em troca?
Daremos o corpo ao manifesto?

dezembro 22, 2005 12:59 a.m.  
Blogger Kaiser Soza said...

damos pescas, zee, damos concessões ao nivel de leite, enfim

dezembro 22, 2005 1:02 a.m.  

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