O Independente deixou-se contagiar pelo lema da campanha de proximidade soarista e seguiu o candidato presidencial durante um dia no Algarve. Não houve banhos de multidão na sexta-feira em que Soares apelou ao voto feminino
"Um belo dia de sol no Algarve". Foi assim que o socialista João Cravinho antecipou o dia de campanha de Mário Soares por terras de Cavaco. Com Boliqueime ali tão perto, o candidato octogenário preferiu terras cor-de-rosa para passar a sua mensagem. Guia, no concelho de Albufeira, foi escolhida para um almoço com apoiantes, mas diga-se, a bem da verdade, que não estavam só portugueses. "Mário Soares é internacional", ouviu-se. Inglês não falou, nem francês, ficou-se pelo bem português, algarvio, "frango à Guia" ao almoço. Rodeado por ilustres figuras do socialismo algarvio, riu, conversou mas não discursou: "Fica para a noite".
Pierre Chevron, um apoiante belga, conta que gosta do ex-Presidente porque ele "é um símbolo de paz e de pai". Não é a primeira vez que está em campanha com Mário Soares e não quer perder pitada das suas voltas por terras algarvias. Não arreda pé. Joaquim Guerreiro, amigo de Chevron, faz-lhe companhia:"Não podíamos perder a vinda do doutor Soares ao Algarve". Claro que não.
A comitiva segue para o Zoomarine, que fica logo ao atravessar da estrada. Soares queria ir a pé (talvez por ter dedicado o dia ao Ambiente) mas a comitiva insistiu que "é perigoso passar esta estrada". Cedeu. Lá atravessou a estrada de carro. Por falar de carro, há quem alerte para um pormenor: a matrícula do seu automóvel é 45-95 (não divulgamos o resto por motivos de segurança). Contam que é piada corrente dizer-se que esse deveria ser o resultado da primeira (45 por cento) e da segunda volta (95 por cento). Esperemos por Janeiro.
Situemo-nos em Novembro. Mário Soares está agora no Zoomarine. É convidado VIP e senta-se na tribuna para assistir ao espectáculo de golfinhos. Não teve direito a banhos multidão mas por onde passa é olhado com curiosidade. Quem achou mais piada foram as crianças. Soares falou e riu com elas. Pergunta-lhes se "gostam de golfinhos", ao que prontamente respondem, em coro: "Xiiimm!"
Pois bem, venham de lá os golfinhos, que não se pode deixar nem crianças, nem o "dr. Soares" à espera. Rodeado por jornalistas, que não o deixam assistir convenientemente ao espectáculo, Soares deliciou-se com o golfinho-líder, de nome "Cher". "Este é fantástico", exclama. Será pelo nome ou por ser o líder? "É mesmo fantástico", repete.
Rafael Morais, de seis anos, preferiu olhar para o candidato. "Aquele ali é o Mário Soares, não é?", pergunta. O petiz tem já as suas convicções políticas bem definidas: "Se eu fosse grande votava nele." Mas porquê? "Ora... porque gosto dele!" Fim de conversa.
Deixamos então o Rafael, que sem Mário Soares por perto poderá agora deliciar-se a ver os golfinhos. Até à hora, a política estava afastada do dia de campanha. Essa ficava para mais tarde. Por agora, o candidato preferia falar do parque e de como funcionava, e conversar com quem se aproximasse.
Acompanhado pelo responsável do espaço, Arlindo Ferreira, Soares fez uma visita guiada e alertou para a necessidade de não se esquecer as questões ambientais no debate presidencial. Começava a política. Mas Soares queria mesmo era era ver as tartarugas. Era o dia dedicado ao Ambiente- e às mulheres, que marcavam presença discreta. Não estavam Joana Amaral Dias nem Maria Barroso. Restavam as autarcas socialistas da região do Algarve, entre as quais Ana Figueiredo, presidente da Junta de Freguesia de Portimão, que não descolou da comitiva. Gosta de Soares desde que se lembra e apoia-o, entre outras coisas, "pela experiência".
Voltas gigantes
"Com Mário Soares tudo é possível", exclama-se pela multidão. O candidato foge aos planos de Arlindo Ferreira, responsável pelo parque, e cede ao desafio de se lançar numa volta pela roda gigante. "Deixa-nos ir dar uma voltinha?" Ora, seja feita a vontade do "senhor Presidente". Deu uma volta e parou. Prenúncio das eleições? "As segundas voltas são sempre as melhores!", responde. Ficou pela primeira.
Antes de deixar o parque viu ainda os aquários, onde, entre robalos, tubarões e raias, estava a tão desejada tartaruga. "É centenária?" Infelizmente, para Soares, não era. "Eles queriam era que me pusesse em cima de uma". Felizmente, para ela, não pôs. Fica para a próxima.
Finalmente a política
No rodopio de inaugurações de sedes de campanha, Soares foi de Faro a Olhão e depois para Portimão. Seria aí o ponto alto do dia. Pelo caminho, andou de comboio na linha problemática Faro-Olhão e recebe o calor de um popular que do lado de fora, bate insistentemente no vidro e diz o que Soares não quis dizer: "O candidato do Partido Socialista é só um. O resto é paisagem!" Soares sorri, agradece, mas não deixa de avisar: "Ainda parte o vidro!..."
Em terras de Cavaco, deixou-lhe recados: "Um Presidente da República tem que ter consciência dos problemas." E ainda: "Cavaco Silva é um homem de talentos. É especialista em Finanças e Economia e fora isso não tem preocupações."
Houve ainda duas palavras para as declarações de cariz presidencialista de Francisco Balsemão: "Fiquei surpreendido".
Já em Portimão esperava-o um jantar com mais de 500 pessoas. É recebido em ovação. Acena, abraça, mas não se perde no meio da multidão. Um dia "low profile" apenas agitado pelas palavras de Manuel da Luz, presidente da Câmara Municipal de Portimão.
O autarca pôs a sala de pé a gritar "Soares é fixe". Sossegou o candidato: "Portimão e o Algarve gostam de si." E deixou ataques cerrados àquele considerado por Soares como "o único rival". Disse Manuel da Luz: "Pretende aparecer como se fosse um profissional, como se a política fosse coisa nenhuma." Deixa a plateia a rir quando, num tom irónico, afirma: "Ele até não fala!" Soares também riu e ficou satisfeito com as declarações do anfitrião. Subiu ao palanque na terra que diz sua "por adopção" e discursou por largos minutos. Deu tempo para tudo.
Na terra adoptada falou da crise, de como ultrapassá-la, e apelou ao voto das mulheres. No dia internacional da luta contra a violência sobre as mulheres, Soares elogiou-as: "As mulheres trabalham muito mais que os homens." Depois recorda que "é verdade que já começam a aparecer maridos espancados, mas a desproporção é muito grande".
No passeio por terras algarvias, que terminou já com chuva, esta foi a única inimiga num dia em que, nem as rosas distribuídas em Portimão tiveram espinhos.
O Independente 30 de Novembro de 2005